O médico radiologista Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues aponta uma contradição comum nos consultórios: enquanto muitas mulheres na faixa indicada para o rastreamento deixam de fazer a mamografia, outras, jovens e sem sintomas, acumulam exames de mama sem necessidade. Mais exames não significam, necessariamente, mais proteção. Quando feitos sem indicação, podem gerar ansiedade, procedimentos desnecessários e custos sem benefício correspondente.
Ultrassonografia anual sem indicação
O primeiro erro recorrente é a ultrassonografia de mama feita todos os anos em mulheres jovens, sem sintomas e com risco habitual. Muitas vezes, o exame é incluído no check-up ginecológico de rotina, como se fosse uma forma de rastreamento. A solicitação parte, muitas vezes, do desejo da própria paciente de se sentir protegida, e acaba renovada a cada consulta sem reavaliação da real necessidade.
Não há evidência de que essa prática reduza a mortalidade por câncer de mama na população de risco habitual. Por outro lado, o ultrassom identifica com frequência pequenos cistos e nódulos benignos, comuns nessa faixa etária, que passam a exigir acompanhamento e, às vezes, investigação adicional. O resultado é uma rotina de controles que se estende por anos, sem mudança no risco real da paciente.
Mamografia antes da idade recomendada
O segundo erro é antecipar a mamografia de rotina para mulheres de 30 e poucos anos sem fatores de risco. Aos 30 e poucos anos, as mamas costumam ser densas, o que reduz a sensibilidade do exame, e a incidência de câncer é baixa.
Mulheres com histórico familiar importante, mutações genéticas ou radioterapia prévia no tórax são exceções e podem ter indicação de rastreamento precoce. Segundo Vinicius Rodrigues, a diferença está na avaliação individual de risco, e não na idade isoladamente, o que torna essencial a conversa sobre histórico familiar antes de pedir qualquer exame.
Repetição de exames em intervalos curtos
O terceiro erro é repetir exames com intervalos menores que o necessário. Mulheres que mudam de médico ou de serviço frequentemente refazem ultrassonografias e mamografias recentes porque os resultados anteriores não foram levados ou não estavam disponíveis.
A falta de comparação com exames antigos também aumenta as convocações. Uma alteração estável há anos pode parecer nova quando analisada sem histórico, levando a exames complementares que seriam evitados com o acesso às imagens anteriores. Guardar laudos e imagens, físicos ou digitais, e levá-los a cada consulta é uma medida simples que reduz esse problema.
O custo do excesso para a paciente
Cada achado benigno identificado em um exame sem indicação pode desencadear uma sequência de controles em seis meses, novas imagens e, em alguns casos, biópsias. Na avaliação de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, o impacto emocional dessas etapas é frequentemente subestimado, sobretudo em mulheres jovens que procuraram o exame apenas por precaução.
Há também consequências práticas. Exames desnecessários ocupam vagas que poderiam atender mulheres com sintomas ou na faixa de rastreamento, e geram custos para o sistema de saúde, para os planos e para as próprias pacientes, sem ganho mensurável em diagnóstico precoce.
Como encontrar o equilíbrio
O caminho começa pela avaliação de risco ainda na juventude, com perguntas sobre histórico familiar, biópsias anteriores e outros fatores. Para quem tem risco habitual e não apresenta sintomas, o exame clínico das mamas nas consultas e a atenção a alterações no próprio corpo são suficientes até a idade de iniciar o rastreamento.
Sintomas como nódulo novo, secreção espontânea com sangue ou alterações na pele devem ser investigados em qualquer idade, e nesses casos a ultrassonografia é o exame indicado. Conforme orienta Vinicius Rodrigues, a melhor estratégia é pedir o exame certo para a pessoa certa, no momento certo, evitando tanto a falta quanto o excesso.
