O Plano Rio Grande já mobilizou mais de R$ 14 bilhões, mas ainda há famílias sem casa, rodovias em obras e escolas aguardando reforma
Maio de 2024 deixou uma marca que o Rio Grande do Sul não vai esquecer tão cedo. As enchentes que varreram cidades inteiras, derrubaram pontes, isolaram comunidades e deslocaram centenas de milhares de pessoas foram consideradas o pior evento climático extremo da história do país em termos de população atingida. Dois anos depois, o ritmo de reconstrução revela tanto o que foi feito quanto o tamanho do que ainda precisa ser concluído. Casas entregues, estradas recuperadas e unidades de saúde reformadas coexistem com obras inacabadas, famílias ainda em situação provisória e um olhar atento para o horizonte climático de 2026, que projeta o retorno do El Niño ao sul do Brasil.
O balanço oficial divulgado em abril deste ano pelo Governo Federal aponta que 430 mil famílias foram beneficiadas pelo Auxílio Reconstrução até março de 2026, com repasse de R$ 2,2 bilhões, enquanto o Minha Casa Minha Vida Reconstrução viabilizou 25 mil casas contratadas ou em processo de contratação, somando R$ 3,5 bilhões em investimentos. São números que impressionam, mas que ainda não encerram a história de quem perdeu tudo. A quantidade de moradias entregues na modalidade de Compra Assistida soma 12.468 unidades, enquanto outros projetos seguem em fase preparatória ou com obras iniciadas, o que significa que parte significativa das famílias ainda aguarda uma solução definitiva de moradia. GOV.BR
O que avançou e o que ainda está em obra
A infraestrutura foi uma das prioridades desde o início. As rodovias gaúchas tiveram 800 km recuperados após as enchentes. Estradas que conectam o interior ao litoral, acesso a comunidades rurais, pontes que ligam municípios, tudo isso precisou ser reconstruído do zero em muitos trechos. O trabalho continua nas principais rodovias federais do estado, com obras de contenção de encostas, reconstrução de aterros e recuperação de pontes na BR-116, BR-158, BR-287, BR-290 e BR-470, entre outras. Não é exagero dizer que o RS tem hoje um canteiro de obras espalhado por centenas de quilômetros. Para quem mora no interior gaúcho, a diferença entre uma estrada recuperada e uma em ruínas é a diferença entre levar o filho ao médico no prazo ou não. Sul 21
Na área social, os dados são igualmente expressivos. 101 unidades de saúde estão em reforma ou reconstrução, com investimento total de R$ 197,7 milhões, enquanto 209 escolas passam por processos similares, com R$ 195,8 milhões em investimentos no estado. Das unidades de saúde, apenas 10 foram concluídas até o levantamento mais recente, 54 estão em execução e outras 32 aguardam início. O ritmo preocupa quem precisa de atendimento hoje. Em comunidades de interior que já dependiam de estruturas precárias antes das enchentes, cada mês sem posto de saúde reformado representa risco real à saúde da população. GOV.BR
A economia surpreendeu, mas os desafios seguem
Um dos dados mais surpreendentes do pós-enchentes é o desempenho econômico do estado. A expectativa inicial era de forte impacto negativo no PIB gaúcho, mas a estimativa inicial de crescimento era de 3,6%, porém o resultado alcançou 4,9% em 2024. A arrecadação de ICMS entre julho de 2024 e junho de 2025 superou em R$ 7,6 bilhões o mesmo período do ano anterior, e a taxa de desemprego caiu 0,8 ponto percentual. Esses números contrariaram projeções pessimistas e indicam uma resiliência econômica que especialistas atribuem à mobilização de recursos, ao consumo estimulado pelos programas de auxílio e à capacidade produtiva do agronegócio gaúcho, que rapidamente retomou operações nas áreas menos afetadas. GOV.BR
Mesmo assim, o desafio não acabou. A Defesa Civil passou por uma transformação profunda. O órgão, que contava com 42 servidores militares até 2023, agora tem 131 servidores militares e 32 técnicos, e os 23 veículos à sua disposição se tornaram 94. Essa ampliação reflete uma mudança de mentalidade: o estado passou de uma postura reativa para uma atuação preventiva. O governador Eduardo Leite foi explícito ao afirmar que o Rio Grande do Sul precisa estar preparado para novas cheias, especialmente diante da previsão de El Niño para o segundo semestre de 2026. Estrutura ampliada, rede de monitoramento climático e coordenadorias regionais distribuídas pelo território são parte desse novo modelo. O gaúcho que viveu maio de 2024 sabe que não pode contar com a sorte. Agora, espera poder contar com o Estado. Sul 21
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
